Oficialmente, Jango morreu na Argentina em 1976, vítima de um ataque cardíaco. Mas a família do ex-presidente suspeita que ele tenha sido envenenado em uma ação da Operação Condor, parceria entre os órgãos repressores do Brasil e da Argentina entre os anos de 1976 e 1980.
Antes da exumação do corpo, será realizada nesta terça-feira uma audiência pública em São Borja, no Centro de Tradições Gaúchas Tropilha Crioula para explicar detalhes de como será o procedimento de investigação da morte do ex-presidente.
Na manhã desta quarta-feira, cinco peritos da Polícia Federal e outros cinco peritos estrangeiros abrirão o caixão de Jango, tirarão os restos mortais do ex-presidente, colocando-os em um caixão especial para preservar ao máximo as características do corpo e trazê-lo a Brasília. Esse cuidado tem o intuito de evitar ao máximo a exposição do corpo ao calor e à umidade para que não ocorra a perda de características ou de elementos químicos que estão nos restos mortais de Jango durante o processo de investigação. A família do ex-presidente pretende acompanhar esse momento, menos a viúva de Jango, Maria Tereza Goulart.
Os restos mortais de Jango chegarão a Brasília na quinta-feira pela manhã e serão recebidos com honras de Estado pela presidente Dilma Rousseff na Base Aérea da capital federal. Somente depois dessa solenidade é que começam os trabalhos de investigação sobre a morte do ex-presidente.
Fases da investigação
No Brasil, a investigação será realizada na sede do Instituto Nacional de Criminalística (INC), no setor Policial, em Brasília. Serão realizados exames antropológicos, que visam obter características anatômicas que possam contribuir para a identificação do corpo. Nessa fase, também devem ser feitas radiografias e tomografias do ex-presidente para ajudar na identificação dos seus restos mortais. Esses exames serão comparados a características de Jango informadas previamente pela família, os chamados dados ante-mortem (como cirurgias, implantes ou outras características corporais do ex-presidente).
A segunda fase de investigação no Brasil constituirá na coleta de amostras (possivelmente cabelo dependendo do estado de decomposição do corpo) para a realização da decodificação do DNA de Jango. Esse DNA será comparado a amostras de DNA colhidas de seus familiares. Também no Brasil serão retiradas as amostras para a realização dos exames toxicológicos, para a investigação da possibilidade de envenenamento do ex-presidente.
Os exames toxicológicos, no entanto, serão realizados em dois laboratórios internacionais cujos nomes são mantidos sob sigilo. A intenção é que não ocorra a intercomunicação entre os dois laboratórios. Assim como as amostras dos restos mortais de Jango, será encaminhada a esses laboratórios uma lista de pelo menos 10 substancias nocivas, entre as quais clorofórmio e escopolamina. Essas substancias foram listadas como as mais usadas pelos regimes repressores na América Latina para envenenamento de pessoas contrárias ao regime militar. Também haverá a busca por medicamentos normalmente utilizados por Jango, como Isodril e Adelfan.
Os próprios responsáveis pela investigação e a família de Jango admitem ser difícil a expedição de um laudo conclusivo sobre a morte do ex-presidente. Quase 37 anos após a sua morte, é muito provável que algumas substâncias nocivas supostamente utilizadas na morte de Jango não sejam encontradas. E mesmo que os exames indiquem vestígios de que Jango foi envenenado, os laudos também podem apontar alterações nas substâncias químicas no corpo apontando “falso exame positivo”.
“A ideia é se esgotar todos os meios de prova. Se existe uma possibilidade mínima (de se encontrar vestígios da morte de Jango), é importante ir atrás dela”, disse a procuradora da República Suzete Bragagnolo, do Ministério Público Federal no Rio Grande do Sul (MPF-RS), responsável pelo inquérito civil público que investiga a morte do ex-presidente.
“Estamos lutando por isso há uma década. Isso não é um capricho. Estamos falando de um presidente da república”, diz Christopher Goulart, neto do ex-presidente. “As homenagens, o fato dele ser recebido com honras de chefe de Estado é mais importante que um laudo conclusivo. A não existência de um laudo conclusivo, não isenta a ditatura de nada. Meu avô sempre foi rotulado como fraco, como despreparado. Isso foi uma mentira. Mas nós da família sempre tivemos que arcar com essa carga”, complementou.
Após a exumação de Jango, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) e o MPF-RS ainda decidirão se serão realizadas oitivas em busca de novos depoimentos. A princípio está sendo estudada a possibilidade de se ouvir uma testemunha que hoje mora nos Estados Unidos. As investigações sobre a morte de Jango devem ser concluídas no final do ano que vem.
Fonte: Agência Estado
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